O metalúrgico aposentado José Antônio dos Santos, de 58 anos, é um portador de glaucoma que abandonou o tratamento do glaucoma por não sentir nenhum sintoma da doença e achar que a medicação prescrita não era necessária. “Como não sentia nada, simplesmente deixei de usar o colírio e não voltei ao oftalmologista. Algum tempo depois, quando fui a uma nova consulta por conta da presbiopia e do astigmatismo, é que foi constatado que a minha pressão ocular estava altíssima”, conta.
A história de Santos é, infelizmente, mais uma regra do que uma exceção. Segundo dados do setor de glaucoma da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), apesar de o glaucoma ser a principal causa de cegueira irreversível em todo o mundo, a adesão dos pacientes ao tratamento ainda é um obstáculo. Há no Brasil mais de 900 mil portadores de glaucoma, sendo que 40% deles não seguem o tratamento corretamente.
Regina Cele Silveira, chefe do departamento de glaucoma congênito da Unifesp, revela que cerca de 20% dos pacientes que passam por exames e apresentam suspeita de glaucoma não voltam para uma segunda consulta. “Falta informação. Muitas pessoas ainda desconhecem a doença. Sabem mais sobre a catarata e a conjuntivite do que o glaucoma, por isso a divulgação é muito importante”, acrescenta.
Por que isso acontece? A razão é simples: a ausência de sintomas. O glaucoma não apresenta nenhum sinal na fase inicial em 90% dos casos. “Ele é sorrateiro, pois quando o paciente começa a perceber alguma dificuldade em enxergar, a doença já destruiu 850 mil fibras nervosas, que corresponde a 75% do total existente, e já comprometeu grande parte do campo visual”, explica Remo Susanna Jr., professor associado e diretor do serviço de glaucoma na Universidade de São Paulo (USP).
A ausência de dor ou qualquer outro incômodo faz com que o portador do glaucoma não perceba alterações no campo visual. Vital Paulino Costa, professor livre-docente da USP e chefe do setor de glaucoma da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), esclarece que, em geral, a doença atinge apenas um dos olhos na fase inicial, o que faz com que o olho sadio aliado ao cérebro compense a deficiência da perda visual. “O paciente começa a perder o campo periférico e não percebe, pois a perda é feita de forma lenta e progressiva”, salienta.
Quando a doença chega a uma fase avançada, o paciente fica com a chamada “visão tubular”, que dificulta atividades simples como a locomoção. “Quem tem glaucoma avançado não consegue enxergar as pessoas ao seu redor e tem dificuldade de desviar de objetos no caminho”, afirma Costa. No último estágio, o glaucoma atinge a visão frontal, que ainda estava preservada, e provoca a cegueira completa e irreversível.
Desvendando a doença
Existem mais de 25 tipos de glaucoma na literatura médica, que incluem glaucomas secundários a traumas, uso excessivo de colírios de corticóides, inflamações nos olhos ou diabetes. O mais comum, entretanto, é o glaucoma crônico simples, que atinge de 2 a 4% da população acima dos 40 anos. Alguns estudos mostram que a população negra também tem maior propensão a desenvolver a doença.
De forte caráter hereditário, o glaucoma afeta o nervo óptico, estrutura que leva a informação visual do olho para o cérebro. O principal fator de risco da doença é o aumento da pressão intra-ocular, causado por uma deficiência na drenagem do humor aquoso, um líquido transparente que flui dentro do globo ocular. Segundo Costa, da Unicamp, esse líquido é produzido continuamente pelo olho, ao mesmo tempo que é drenado para fora por um sistema de canais.
A pressão alta se desenvolve devido a uma deficiência nesse sistema. “A ciência ainda desconhece o mecanismo exato do aumento da pressão intra-ocular, mas sabe-se que ela atrapalha no funcionamento das fibras nervosas que formam o nervo óptico”, detalha.
Para Susanna Jr., da USP, a maneira do diagnóstico do glaucoma foi um grande avanço na prevenção da doença. “Hoje a definição de glaucoma não é mais dada apenas pela medida da pressão intra-ocular. Sabe-se que o diagnóstico correto deve ser feito pelo nervo óptico e pela camada de fibras nervosas”, afirma. Somente o oftalmologista pode realizar os exames de fundo de olho e a medição da pressão, por isso é recomendável que pessoas acima de 40 anos, que é a idade em que a moléstia começa a se manifestar, visitem regularmente um especialista.
Susanna Jr. ainda aconselha os pacientes a sempre perguntarem qual a pressão dos seus olhos, pois isso força o oftalmologista a dar uma atenção especial aos exames. “Se o paciente tiver uma alteração no nervo óptico, independente da pressão alta, significa que ele tem glaucoma e merece atenção. Mas se ele apresentar pressão alta e não tiver nenhuma lesão, ele é um hipertenso ocular, e tem grande tendência a desenvolver a doença, principalmente se sua córnea for fina. A espessura corneana é muito importante no desenvolvimento da doença”, acrescenta.
Luz no fim do túnel
Infelizmente a ciência ainda não descobriu formas de prevenir o glaucoma, mas é certo que a fidelidade ao tratamento pode controlar a doença. Os pacientes diagnosticados com glaucoma fazem um tratamento a base de colírios que diminuem a pressão intra-ocular por meio da produção de humor aquoso ou do maior escoamento desse líquido. “A boa notícia é que o mercado farmacêutico disponibiliza uma grande variedade de colírios que são bem mais eficazes do que eram há 10 anos”, analisa Costa.
Em que casos em que apenas os colírios não surtem efeito, os tratamentos com laser e até cirurgia se apresentam como alternativas eficazes. O oftalmologista Susanna Jr. enfatiza, entretanto, que deve ficar claro que o objetivo desses tratamentos não é curar a doença, mas controlar, estabilizar e impedir que haja uma progressão no defeito do nervo óptico e no defeito do campo visual. “A fidelidade ao tratamento evita 10% das cegueiras por glaucoma. Portanto, a percepção do médico e do paciente sobre a doença é importante, já que é através do esclarecimento sobre o que é o glaucoma e como é o tratamento que os índices de cegueira por glaucoma podem diminuir”, diz.
“É preciso informar sobre a doença, alertar para a questão da hereditariedade, e fazer com que o paciente conheça a sua pressão ocular e utilize o colírio corretamente. Conscientizar o paciente de que, apesar dos efeitos colaterais, os colírios devem ser instilados de modo correto e nos horários prescritos é a única maneira de evitar que ele fique cego”, destaca a oftalmologista Regina, da Unifesp.
Iniciativas de prevenção
O Dia Nacional de Combate ao Glaucoma em 26 de maio foi comemorado com um grande evento no Museu de Arte de São Paulo (Masp) por todos os associados da Associação Brasileira dos Portadores de Glaucoma (Abrag). Todos os participantes tiveram a oportunidade de ouvir palestras informativas sobre a doença e ainda conferiram as apresentações de Carla Ribeiro, Ronaldo e Reinaldo Rayol, Iluminuras e do grupo Percussão Orgânica Vocal.
Criada em 2000, a Abrag é resultado de uma ação de oftalmologistas, empresas farmacêuticas e familiares de portadores de glaucoma, cujo objetivo é oferecer apoio, educação, informação e troca de experiência. Segundo a diretora executiva da entidade, Elisabete Frucchi, é importante que os portadores de glaucoma e seus familiares aprendam o máximo possível sobre a doença e como conviver com ela, pois infelizmente a falta de informação ainda é o maior obstáculo para controle da doença.
Dicas para os portadores de glaucoma
Siga corretamente as instruções do seu oftalmologista
Saiba qual a sua pressão ocular. Essa informação pode auxiliar seu oftalmologista na próxima consulta
Adapte os horários do uso do colírio às suas atividades diárias. O controle do glaucoma depende do uso correto e regular da medicação
Informe-se corretamente sobre a forma de aplicar seu colírio. Caso tenha dificuldades, peça auxílio a um familiar
Nunca deixe de ir às consultas oftalmológicas e leve sempre as receitas anteriores. É nesta ocasião que o médico avaliará o seu tratamento.
