Estudo revela a opacidade da indústria em termos de responsabilidade corporativa
Walter Oppenheimer escreve de Londres para “El País”, de Madri:
Estudo realizado pela Consumers International, entidade que reúne 230 organizações de consumidores e governos de 113 países, revela a falta de escrúpulos da indústria farmacêutica ao dar maior prioridade às vendas que às necessidades dos consumidores.
O estudo, realizado com base em questionários e entrevistas com 20 grandes companhias farmacêuticas e um trabalho de campo em sete países europeus, denuncia a falta de transparência em termos de responsabilidade social corporativa e salienta que os gastos em promoção de medicamentos são duas vezes maiores que os gastos em pesquisa.
O trabalho chega a quatro grandes conclusões:
as companhias farmacêuticas demonstram pouca transparência ao informar sobre aspectos chaves de sua política de responsabilidade social corporativa;
as novas técnicas de marketing não favorecem o uso racional dos remédios por parte dos consumidores;
a indústria dispõe de um mecanismo frágil de auto-regulamentação; e as companhias farmacêuticas têm uma relação pouco clara com os pesquisadores médicos.
Nada, ou muito pouco, parece ter melhorado desde que há oito anos um relatório da Health Action International chegou a conclusões semelhantes.
O estudo analisa as práticas de 21 grandes empresas, entre as quais Admirall Prodesfarma, Bayer, Boehringer-Ingelheim, GlaxoSmithKline, Merck Sharp Dohme, Novartis, Orion Pharma, Roche, Samofi-Aventis e Schering.
Todas receberam um questionário detalhado e foram contatadas pelos autores.
Paralelamente, um grupo de jornalistas especializados em informação de consumo examinou as técnicas de promoção de medicamentos em sete países europeus: Dinamarca, Finlândia, Grécia, Hungria, República Checa, Portugal e Eslovênia.
A falta de transparência da indústria chega ao extremo de que só uma das companhias pesquisadas, a Orion Pharma, ofereceu informações sobre a composição específica de seu orçamento de marketing e só duas – Novartis e GlaxoSmithLine – informaram o número de vezes que foram sancionadas por descumprir o código de marketing.
As companhias implementaram novas táticas para pressionar os médicos e assim conseguir que prescrevam seus medicamentos.
As novas técnicas se baseiam na utilização de grupos de pacientes, estudantes de medicina e farmacêuticos, aos quais se tem acesso através da Internet, folhetos publicitários, revistas e outros métodos, "para criar de maneira sutil uma necessidade de demanda de produtos entre os consumidores" sem precisar recorrer à publicidade direta.
"A falta de acordo para adotar os padrões internacionais aceitos para conseguir um comportamento corporativo ético no nível da companhia provoca sérias dúvidas sobre a força da auto-regulamentação da indústria para conseguir altos padrões ao implementar os códigos de responsabilidade social corporativa", salienta o relatório.
Os autores encontraram "evidências de uma variedade de estratégias anticoncorrência, incluindo cartéis, manobras de fraude de patentes, manipulação e reembolso de preços, descontos impróprios, aumentos de preços e corte de abastecimento de produtos e ingredientes farmacêuticos".
As companhias "oferecem aos profissionais de saúde uma variedade de incentivos para promover seus medicamentos, em vez de priorizar a saúde e a segurança dos consumidores".
Alguns líderes de opinião são contratados de maneira sub-reptícia para promover os medicamentos, de maneira que parecem fazê-lo por mera convicção pessoal, quando na verdade estão recebendo uma compensação em troca de sua influência no corpo médico.
