Por que não subestimar a conferência dos óculos

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A conferência dos óculos fecha o ciclo de todo o trabalho da consulta oftalmológica. A satisfação do paciente com a boa adaptação aos óculos é garantia de novos clientes. E o paciente de refração é o mais freqüente no dia-a-dia do consultório oftalmológico.

 

No entanto, com a invasão da consulta de convênio que remunera bem abaixo da particular, o ato de conferência dos óculos, não remunerado pelo convênio, passou a ser, pela maioria dos oftalmologistas, um ato secundário de menor importância.

 

Boa parte dos colegas oftalmologistas não confere óculos multifocais no rosto do paciente. Não vêem a maioria dos problemas dos multifocais. Como as lentes são patentes das respectivas empresas, o grau raramente está incorreto, mas a marcação dos centros ópticos com freqüência está descentralizada em relação à pupila do usuário. Alguns alegam que só conferem no rosto se o paciente se queixar na recepção. Recebo muitos clientes de outros colegas que não reclamaram e trocaram de médico ou de óptica, pois não se sabia quem era o responsável - o médico não conferiu os óculos no rosto do paciente...

 

Com o advento e popularização dos lensômetros computadorizados ( não convencionais), pela simplicidade dos aparelhos e pela falta de tempo do oftalmologista, delega-se a conferência de óculos a uma funcionária muitas vezes sem o conhecimento necessário. A presença comum de prismas em multifocais, causa de desconforto enorme na adaptação, facilmente visto no lensômetro automático, dificilmente é um motivo de reclamação pelos oftalmologistas, para as ópticas corrigirem o problema.

 

Outra observação comum no nosso meio: a não conferência da marca do multifocal. A funcionária (seja auxiliar de consultório ou, pior, a recepcionista) ocupada, mal confere o grau, dá o visto e libera o paciente. Existe um aparelho simples da Essilor, chamado PAL-ID, que amplia a logomarca do multifocal ao se colocar os óculos abaixo de um filtro especial. Mas infelizmente a Essilor não percebeu que esse aparelho deveria custar 1/3 do seu valor para que se popularizasse e, com isso, não assistiríamos tanta troca de multifocal: prescreve-se, por exemplo, multifocal de marca superior, a óptica recebe por esta marca e coloca outra bem inferior; o paciente vai ao consultório, a atendente confere o grau e dá o “ok”.

 

O paciente comprou “gato por lebre” e o oftalmologista certificou a troca no consultório. Isto acontece muito mais freqüentemente do que se imagina.

As empresas fabricantes de multifocais ainda não perceberam o quanto perdem na troca da prescrição pelas ópticas por problemas não detectados pelo médico. Investem em propagandas caras, stands em todos os Congressos oftalmológicos e folders luxuosos, quando, na realidade, se não investirem na conferência dos óculos, vai continuar havendo o desvio.

 

As atendentes que conferem óculos deveriam ser o foco por parte das multinacionais. O que se faz hoje em treinamento na conferência dos óculos é muito pouco diante do mercado competitivo e nem sempre confiável.

 

Existe na caixinha de toda lente multifocal, um cartão de autenticidade do produto, que deveria ser entregue ao cliente, mas pouquíssimas ópticas realizam essa entrega de rotina.

 

Não sou contra a conferência pela auxiliar de consultório, mas devemos treiná-la bem, sabendo conferir os óculos no rosto do paciente, ver o logotipo da lente, prismas no lensômetro, chamando o oftalmologista quando detectar algum defeito para que ele confira e envie relatório à óptica, para correção.

 

Acho que nós, oftalmologistas, não podemos menosprezar tanto a conferência dos óculos. E é preciso que as multinacionais dos multifocais enxerguem melhor a importância do bom treinamento de quem confere o multifocal!

Source: Mário Ursulino
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