Memórias visuais

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Parada em frente ao quadro "Paisagem", de Alfredo Volpi, Sonia Fernandes Branco, 56, lembra-se de cenas de sua infância. "Morava numa casa com um riacho e uma ponte parecidos com esses. Meu pai era farmacêutico, e as pessoas atravessavam a ponte para comprar remédios", conta. Apesar de se recordar de detalhes de tempos remotos, ela faz esforço para lembrar, minutos depois, as cores do quadro que acabou de ver. O esquecimento de acontecimentos recentes foi o primeiro sintoma que Sonia manifestou da doença de Alzheimer, diagnosticada em 2004. "Ela não me dava os recados. Ligava para a minha filha e perguntava a mesma coisa duas vezes", diz seu marido, José Carlos Branco, 59.
O passeio de Sonia à exposição de pintores modernistas, no Espaço Cultural BM&F, em São Paulo, foi organizado pela psicóloga e artista plástica Sonia Fortuna a pedido da Folha. Enquanto via as obras, a paciente era estimulada a fazer relações com episódios de sua vida e a fixar detalhes dos quadros na memória. Logo depois, foi convidada a fazer, com desenho e colagem, uma interpretação do que viu.
Cenas como essas, que despertam a curiosidade de alguns visitantes, já se tornaram comuns em alguns museus dos EUA. O MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York) e o Museu de Belas Artes de Boston, por exemplo, criaram programas específicos para portadores de Alzheimer visando usar a arte como um instrumento terapêutico para esses doentes.
No MoMA, os educadores foram treinados pela organização Artists for Alzheimer's para entender a doença. Em novembro de 2004, o museu criou o programa "Meet me at MoMA", que promove para esse público, mensalmente, visitas interativas que incluem a apreciação do acervo e atividades práticas. O programa também é oferecido em residências para esses pacientes. "As pessoas com Alzheimer conseguem responder a uma pintura ou escultura mesmo sem reconhecê-los", diz Carrie McGee, do departamento de educação do MoMA.
Apesar de não haver estudos científicos conclusivos na área, acredita-se que o contato com as artes ajude a despertar capacidades interpretativas e expressivas. Menos pesquisadas do que a música em relação a seu efeito em portadores de Alzheimer, as artes plásticas estimulam diferentes áreas do cérebro e podem ser usadas na reabilitação desses pacientes.
Para o neurologista Paulo Bertolucci, chefe do setor de neurologia do comportamento da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), apreciar obras de arte pode ajudar pelo fato de despertar emoções. As situações com grande carga emocional costumam ficar por mais tempo na memória, cuja perda progressiva é um sintoma da doença. "Intuitivamente, parece benéfico. As grandes obras de arte tocam, trazem referências pessoais. Um museu pode ter uma carga emocional que funciona como estímulo extra", diz.
Segundo Bertolucci, como o número de pessoas com Alzheimer aumenta com o envelhecimento da população mundial, instituições como os museus devem se preparar para receber esses pacientes. Segundo o neurologista Rodrigo Schultz, participante do grupo de pesquisas de Bertolucci que estudou a relação entre memória emocional e Alzheimer, observar obras de arte estimula as sinapses (conexões entre os neurônios). "A imagem pode trazer lembranças ou ser associada a outras coisas, mantendo as sinapses mais ativas. A observação e o fato de a pessoa ter de responder a perguntas sobre as obras estimulam diferentes áreas do cérebro."
Ele também lembra o papel da música na reabilitação de quem tem Alzheimer. "Tem gente que não fala, mas, quando ouve música, de repente começa a cantar", conta.
No Brasil, os principais museus não têm programas específicos para portadores de demências. Mas alguns arteterapeutas, psicólogos e terapeutas ocupacionais que trabalham com idosos organizam visitas a espaços culturais e desenvolvem atividades artísticas como um meio de melhorar a qualidade de vida desses pacientes e até de tornar o avanço da doença mais lento.
A psicóloga Sonia Fortuna, que acompanhou Sonia Branco na visita à exposição dos modernistas, é uma delas. Autora do livro "Doença de Alzheimer, Qualidade de Vida e Terapias Expressivas" (ed. Alínea), ela é a curadora do concurso anual de artes promovido pela Abraz (Associação Brasileira de Alzheimer). Anualmente, quatro portadores da doença são premiados nas categorias pintura, escultura, artesanato e literatura.
Fortuna costuma levar seus pacientes para visitar exposições. Alguns já tinham o hábito  de pintar antes de adquirir a doença. É o caso de Maria Aparecida Salgado, que tem Alzheimer há três anos. "Pinto tudo o que vejo e acho bonito", diz ela, enquanto olha para dois de seus quadros no Centro de Estudos Gerontológicos Arte e Vida, onde Fortuna atende.
"O trabalho com terapias expressivas não pára a evolução da doença, mas amplia suas tapas", afirma a psicóloga. O Alzheimer é composto por três fases. Na fase inicial, o paciente costuma manifestar distração, dificuldade para se lembrar de nomes e palavras e desorientação em ambientes familiares. Na fase intermediária, os principais sintomas são perda marcante da memória e da atividade cognitiva, diminuição do conteúdo da fala e alterações de comportamento como agressividade. Na fase avançada, a fala vai desaparecendo, e a pessoa passa a ter dificuldade para andar, engolir alimentos e controlar a bexiga.
Fortuna trabalha com artes plásticas apenas na etapa inicial da doença. "Depois, a pessoa fica sem comprometimento com o que vê."
Para a terapeuta ocupacional e especialista em neurologia Maria Cristina Anauate, da clínica Espaço Viver com Arte, em São Paulo, a decisão de trabalhar com as artes plásticas numa etapa mais avançada da doença depende do quadro do paciente. "As funções que ficam comprometidas variam. Algumas pessoas não conseguem decodificar uma imagem. Nesses casos, fica difícil, mas podemos usar música ou trabalhos corporais. No início, a arte tem um papel de recuperação cerebral. Nas fases mais avançadas, ajuda a manter a auto-estima e o senso de integridade. O que não pode é a pessoa viver fechada em seu mundo", afirma.
Anauate leva seus pacientes a espaços como a Pinacoteca do Estado e o Museu do Ipiranga, em São Paulo. Mas, para ela, não são todos que devem ser encaminhados para a arteterapia. "É preciso analisar as afinidades, as limitações e a história de vida de cada um", diz.
Os dois pacientes que ela levou na semana passada para conhecer a exposição "Homo Ludens", no Itaú Cultural, em São Paulo, são exemplos disso. Um deles, Antonio dos Santos Pereira, 83, trabalhou como pedreiro e se adaptou bem ao trabalho com artes manuais. "Ando muito esquecido", diz ele, que foi diagnosticado com Alzheimer há um ano e meio.
Já Eline Prado, 85, ex-pesquisadora, não tem afinidade com a pintura, mas trabalha bem com a literatura. Ela apresenta uma doença parecida com o Alzheimer: a demência vascular. Animada, com uma articulação perfeita da fala, só é possível notar a doença quando ela passa a repetir várias vezes a mesma história.
A opinião dos dois sobre a exposição "Homo Ludens" foi divergente: enquanto Antonio desfrutou do passeio e se entusiasmou com algumas obras interativas, Eline só aproveitou a visita quando viu obras mais tradicionais, como uma tela de Portinari e uma casa de bonecas. "Para que serve isso?", dizia, diante de obras menos convencionais como uma cortina com pães pendurados. "Para divertir a turma que vem ver", respondeu Antonio.
Para a psicóloga Joice Peters, da moradia para idosos e centro-dia Remanso, em Curitiba, as atividades com arte podem ajudar, mas também confundir. "Muitos pacientes gostam, mas, quando eles não enxergam bem, a visita pode confunfir e piorar a auto-estima." A escolha por trabalhar com imagens abstratas é um dos pontos que têm de ser avaliados, para a neuropsicóloga Jacqueline Abrisqueta-Gomez, coordenadora clínica do Serviço de Atendimento e Reabilitação ao Idoso da Unifesp. "Pode contribuir para uma certa desestruturação, para a qual eles já têm tendência. É preciso analisar bem os perfis", afirma.
Ela lembra que a arteterapia é só uma possibilidade entre as várias práticas de reabilitação. "O objetivo é fazer com que o paciente continue realizando tarefas cotidianas. Procuramos, por exemplo, evitar a perda da temporalidade, marcando datas como feriados e eleições políticas", exemplifica.
No Pará, a Abraz regional trabalha a manutenção da noção de tempo por meio de concursos de arte temáticos em datas comemorativas como o Natal e as festas juninas.
Segundo Abrisqueta-Gomez, as técnicas de reabilitação -que ela prefere chamar de "intervenções neuropsicológicas" no caso de pacientes com doenças degenerativas progressivas- são negligenciadas por muitos familiares, que acabam deixando o paciente em casa.
Para o psiquiatra Cássio Bottino, coordenador do Projeto Terceira Idade do Instituto de Psiquiatria da USP (Universidade de São Paulo), mesmo entre os médicos elas são pouco disseminadas. Estudos de seu grupo mostram que pacientes que associam a medicação ao trabalho de reabilitação têm vantagens em relação àqueles que só usam remédios. No fim do mês, será publicado na revista científica "Arquivos de Neuropsiquiatria" o resumo de um projeto elaborado pela USP e pela Unifesp que analisará o impacto de algumas técnicas da reabilitação em pacientes com Alzheimer.
De acordo com o psiquiatra Jerson Laks, coordenador do Centro para Pessoas com Doença de Alzheimer e Outras Desordens Mentais na Velhice, da UFRJ, sabe-se que o uso de medicamentos nas fases leve e moderada pode retardar a evolução da doença em cerca de um ano. Não há estudos, no entanto, que mostrem esses índices no caso da reabilitação.
Em relação a essas técnicas, a falta de pesquisas científicas com um grande número de pacientes é um problema relatado por vários profissionais. Muito do que se sabe sobre elas vem da observação empírica e de estudos de caso. Uma das dificuldades é usar as metodologias tradicionais. "Com remédios, podemos fazer um estudo duplo-cego, no qual nem médicos nem pacientes sabem se eles estão tomando o princípio ativo ou um placebo. Mas como fazer isso com arteterapia? Não dá. É preciso procurar uma metodologia adequada e confiável para essas pesquisas", diz Lacks.

Source: UOL
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