Regina Gonçalves e seus três irmãos nasceram com a mesma complicação genética que os levou a engrossar as filas para doação de órgãos. A inflamação nos rins, gerada por uma doença degenerativa, interrompeu a vida de Regina que passou seis anos à espera de um órgão. Em 2000, ela foi uma entre os 85 transplantados com sucesso no único hospital de Brasília habilitado a fazer o procedimento, o Hospital de Base. À época, o DF era a unidade da federação com o maior número de doadores de órgãos. Eles somavam 44 a cada um milhão de habitantes. De agosto de 2004 a agosto deste ano, esse número foi reduzido ao mínimo possível: não foi registrada nenhuma doação no DF.
"Chegamos ao fundo do poço no que se refere à doação de órgãos", admite o coordenador da Central de Transplantes do DF, o médico Lúcio Lucas Pereira. Segundo ele, a falta de equipamentos, laboratórios e medicamentos e a desmotivação das equipes médicas gerada pela escassez de recursos foram os responsáveis pela queda drástica. "O transplante é um procedimento que requer agilidade da estrutura médica envolvida. É um espelho para o funcionamento de todo o hospital. Se ele faz bem transplantes com certeza funciona bem nos outros setores. Sem equipamentos e recursos fica impossível", explica.
Além da ausência de estrutura para realização dos transplantes, a falta de iniciativa para doação agrava o quadro dos transplantes no DF. De acordo com dados da Promotoria de Justiça Criminal de Defesa dos Usuários dos Serviços de Saúde (Pró-Vida) do Ministério Público do DF, em 2004 foram registradas 127 notificações de potenciais doadores em hospitais da rede pública e privada no DF. No entanto, apenas cinco doaram os órgãos. "Trinta por cento dos que estão hoje na fila para transplante no DF se declaravam não-doadores antes de sofrerem as complicações de saúde", afirma o promotor da Pró-Vida, Diaulas Ribeiro.
A lei da doação compulsória de órgãos, promulgada em 1997, obrigava todos os cidadãos brasileiros a declararem na carteira de identidade caso fossem não-doadores de órgãos. Aqueles que se omitissem eram considerados automaticamente doadores. "Essa norma fez com que muita gente se declarasse não-doador por medo ou ignorância. O brasileiro não aceita doação sem consulta da família", analisa Ribeiro. A legislação foi revogada em 2001.
No DF, a Pró-Vida criou um cartão de doação de órgãos, emitido gratuitamente pelo Ministério Público. Com ele, o doador demonstra seu apoio à causa e contribuiu para a divulgação da doação de órgãos. "Os portadores do cartão se declaram doadores, mas nenhum procedimento de extração de órgãos é feito sem a devida autorização da família", esclarece o promotor da Pró-Vida. De acordo com ele, a carência de órgãos é um problema no mundo inteiro. "Nunca vai haver um sistema auto-suficiente. Precisamos lutar para diminuir as filas de receptores e engrossar a de doadores. É uma batalha constante".
Segundo o coordenador da Central de Transplantes do DF, nos últimos seis meses, investimentos em equipamentos têm sido feitos na rede pública de saúde. Eles vão permitir o aumento no número de transplantes feitos no DF. Em agosto foram realizados dois transplantes. Nesta quarta-feira, mais dois foram realizados no Hospital de Base. "Vamos capacitar o Hospital Regional da Asa Norte e da Asa Sul para efetuar transplantes. Primeiro será só de córneas, depois de órgãos", conta.
Hoje, 1.177 pacientes estão na fila para transplante de córnea e 535 para o transplante de rins, em todo DF. O Hospital de Base só realiza o procedimento com esses dois órgãos. "O Ministério da Saúde acaba de autorizar a unidade do Incor (Instituto do Coração), no Cruzeiro, a fazer transplante de coração", garante o promotor da Pró-Vida.
Para doação de órgãos sólidos, como rins, fígado e coração, os doadores não podem ter morrido em via pública e ter sofrido parada cardíaca. "A circulação do sangue no corpo do doador precisa ser mantida para garantir a integridade dos órgãos. Isso faz dos pacientes com morte cerebral os maiores doadores em potencial de órgãos", explica Pereira.
Regina é diretora da Associação de Doentes Renais do DF, que reúne cerca de 800 pacientes de diálise. Para ela, o principal inimigo da doação de órgãos é a falta de informação. "Precisamos de uma divulgação mais ampla na mídia, nos colégios para as pessoas conhecerem os procedimentos de doação, as doenças e se sentirem mais seguras para doar", acredita.
O Ministério Público do DF iniciou hoje uma campanha para estímulo a doação de órgãos com um concerto do maestro Arthur Moreira Lima. Os interessados em adquirir a carteirinha de doadores podem acessar o site do ministério, www.mpdf.gov.br e preencher uma declaração de doador que deve ser entregue na sede do ministério, na Praça do Buriti.
