Doar órgãos pode ser mais difícil do que a boa vontade pode supor

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Durante oito horas. família de uma senhora. que morreu de infarte. tentou entregar córneas dela para a Central de Transplantes do Estado. Mas não houve quem pudesse fazer a captação Nem sempre quem se dispõe a doar órgãos consegue ajudar alguém. No domingo passado. a família do analista de processos gráficos Marcelo Virgílio Faria. de 28 anos. decidiu doar as córneas da avó dele. Após quase oito horas de espera. receberam a notícia de que ninguém poderia fazer a captação dos órgãos. "Nessa hora você fica chateado duplamente: pela da morte de um parente querido e pela falta de interesse com os doadores. pois todos sabem que a fila de pacientes é enorme". diz Faria. A avó dele. Agenira Soares Chagas. de 83 anos. morreu de infarte às 16h no Hospital Vila Nova Cachoeirinha. zona norte da cidade. "Quando nós avisamos que autorizávamos a doação. o pessoal do hospital ligou na hora para a Central de Transplantes. que se prontificou a mandar alguém". conta. Como ninguém apareceu até as 22h. Marcelo decidiu entrar em contato com a central. "Fui informado de que a Santa Casa seria a responsável pela captação. mas estava com problemas técnicos. O pedido foi encaminhado para o Hospital das Clínicas (HC). Porém ninguém apareceu." Ele só recebeu a notícia. depois que ligou para o HC. por volta das 23h. "A desculpa foi que não havia nenhuma equipe disponível e que já havia passado as 6h de tolerância para retirar a córnea em bom estado. " Todos os órgãos envolvidos afirmaram que esse caso é uma exceção. Segundo o coordenador da Central de Transplantes de Órgãos da Secretaria de Estado da Saúde. Luiz Augusto Pereira. a responsabilidade é da Santa Casa. "Nossa função é encontrar o centro responsável e. após a captação. cadastrar no sistema e distribuir a córnea para o receptor." A idade ideal para a doação de córnea é até os 50 anos. "mas dependendo do estado. elas podem servir." Ele explica que em São Paulo existem quatro Organizações de Procura de Órgãos (OPO) - HC. Santa Casa. Universidade Federal de São Paulo (ex-Escola Paulista de Medicina) e Hospital Dante Pazzanese -. que fazem a captação de órgãos nos hospitais na sua área de atuação. Outra captação. Pela explicação do coordenador da OPO do HC. Milton Glezer. o pedido foi passado somente às 20h e a equipe de plantão estava em Osasco fazendo outra captação. "Só recebemos a informação às 23h. E já havia passado do tempo hábil da retirada da córnea". diz. A resposta do coordenador da OPO da Santa Casa. Luiz Arnaldo Szutan. não foi muito diferente. "Não me lembro de nenhum caso parecido. Ao contrário. nosso número de captações vem crescendo a cada ano." Segundo ele. a equipe de plantão estava ocupada com a captação de órgãos de uma pessoa com morte cerebral declarada. "Não é a primeira vez que passamos algum caso para outra OPO. Órgãos de doador vivo são prioridade." Szutan alega também que o pedido poderia ter sido feito logo após o óbito da paciente. "Quando somos avisados com tempo. conseguimos administrar duas captações ao mesmo tempo." Ele conta que. enquanto é feito o exame para ver se o órgão está em condições de ser doado. outra captação pode ser feita. O tempo. segundo ele. para atender um pedido é de cerca de duas horas. contando com o translado e o termo de doação que a família deve assinar. "A operação de retirada de córnea dura. em média. 30 minutos para cada olho." No Estado. a média é de 160 transplantes de córnea por mês. para uma fila de 3.312 pacientes. O coordenador da central admite que o sistema de captação na capital ainda precisa de um tempo para se estabilizar. "No interior. foram realizadas 1.072 captações e. em São Paulo. apenas 678. sendo que a grande quantidade de doadores está na capital. Ainda falta organização."

Source: Jornal da Tarde
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