Vencer o preconceito nunca foi uma tarefa simples para os deficientes visuais. Para aqueles que perderam a visão em idades mais avançadas as dificuldades são ainda maiores. Além da discriminação, eles também precisam vencer os traumas e adaptar-se a sua nova condição. Esse quadro, porém, começa a ser revertido, entre outros fatores, pela iniciativa de algumas grandes empresas aliadas ao esforço de instituições de ensino, como as universidades. A pedagoga Mary da Silva Profeta, do Departamento de Educação Especial da Faculdade de Filosofia e Ciências, campus de Marília (SP), por exemplo, defendeu a tese de doutorado "Mulheres com deficiência visual adquirida: aspectos Humanos Educacionais e Socioculturais", para a qual entrevistou 16 mulheres - 13 com formação superior e 3 com o diploma do ensino médio - que perderam a visão entre os 13 e os 40 anos de idade. A docente, que também preside o Conselho Municipal da Pessoa Portadora de Deficiência de Marília, registrou como essas cegas superaram as dificuldades e lutaram para prosseguir com os estudos e suas demais atividades. "Cada uma delas relatou suas experiências pessoais a partir de três temas: idade da perda visual e causa, a relação com a medicina após a perda da visão e a busca de curas alternativas", explica. Ela conta que a maioria das entrevistadas tornou-se cega ainda jovem, o que abalou intensamente a sua estrutura emocional e familiar. "No momento em que essas moças perderam a visão seus estudos, relacionamentos afetivos e profissionais foram bastante prejudicados", comenta Mary. "Isso fez com que, por algum tempo, o encantamento que elas tinham pela vida e com o futuro se perdesse", afirma, enfatizando que em todos os casos essa foi a fase mais problemática. Em seu trabalho, a pedagoga também observou que mesmo sabendo que a perda da visão era definitiva muitas dessas mulheres não deixaram de acreditar que um dia voltariam a enxergar. "Algumas esperavam por um milagre e, por isso, não queriam usar bengalas ou mesmo aprender o método braille", diz. "Elas não suportavam a idéia de adotar para si o estereótipo de cegas", explica. Mary destaca que para superar seus problemas cada participante contou com a compreensão e o apoio de familiares, mas o esforço pessoal e a busca de meios para se adaptar à nova vida foram determinantes para que elas pudessem recomeçar. A decisão de seguir em frente após passar por todos esses problemas foi, sem dúvida, muito importante para a auto-realização dessas mulheres. "As entrevistas que realizei são exemplos de que o cego não é incapaz e pode, perfeitamente, conquistar um espaço na sociedade", conclui a pedagoga.A iniciativa de algumas grandes empresas tem contribuído bastante para a inserção dos deficientes visuais no mercado de trabalho. Localizado em São Paulo, o Serasa, uma das maiores empresas de análises e informações econômico-financeiras e cadastrais do mundo, por exemplo, aposta no desempenho de estagiários deficientes visuais, como o estudante de Direito Marcos Bernardo Rodrigues, de 21 anos; a aluna de Economia Daniela Aparecida Rodrigues dos Santos, de 20 anos; e a estudante de Administração de Empresas Karina Batista Fernandes, de 22 anos. "Eles desempenham funções muito importantes dentro de seus setores e dividem as mesmas responsabilidades conferidas aos nossos demais funcionários", diz o coordenador do Departamento de Responsabilidade Social da empresa, João Batista Cintra Ribas. <br><br> Para serem admitidos, os três universitários passaram por rigorosos testes de seleção. Daniela, que trabalha na Superintendência de Análise de Empresas na Área de Análise Setorial do Serasa, perdeu a visão entre os 10 e os 11 anos de idade. Para conseguir acompanhar as aulas, Daniela, utilizou, na PUC, onde cursa o segundo ano, o mesmo sistema de computador que ela e seus outros dois colegas usam no trabalho: o Virtual Vision. "Como utiliza vozes para indicar as operações realizadas pelo usuário, com ele, posso navegar na Internet e usar os aplicativos do Windows normalmente", explica.Rodrigues atua na Superintendência Jurídica na Área de Contencioso. "Como perdi a visão logo que nasci, pude me adaptar com bastante naturalidade. "Há uma série de atividades que podemos desempenhar tão bem como qualquer outra pessoa. Só precisamos das condições necessárias para isso", diz. Estagiária na Diretoria de Desenvolvimento Humano e Organizacional na Área de Compras, Karina, que conta com aproximadamente 10% da visão, concorda: "Os cegos não precisam ser superprotegidos. Eles apenas têm que ter à sua disposição os recursos básicos para prosseguir normalmente com as suas atividades cotidianas, como corrimãos, inscrições em braille legíveis e, principalmente, o respeito das pessoas." Você sabe andar? Antes de responder a essa pergunta aparentemente tão simples, é bom lembrar que a maior parte das pessoas não tem a mínima idéia de como ocorre o ato de caminhar. Essa ação corriqueira pode, por exemplo, ser um dos grandes causadores de problemas musculares, de articulação e da coluna vertebral. Além disso, a maneira como se caminha e se toca o solo com os pés pode indicar doenças ainda não manifestadas por outros sintomas. Com o objetivo de contribuir para um diagnóstico médico mais rápido e eficaz, diminuindo o custo dos exames e o sofrimento dos pacientes, o matemático Geraldo José Pedran, pós-graduando do Departamento de Mecânica da Faculdade de Engenharia (FE) da UNESP, campus de Guaratinguetá, sob orientação do engenheiro mecânico Tamotsu Hirata, desenvolve o projeto Avaliação por cinemetria do corpo humano durante a marcha, apresentado na I Mostra de Tecnologia da UNESP, em outubro último, no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo.Pedran explica que, devido ao alto custo desses sistemas de avaliação, a tecnologia acaba restrita aos grandes centros de pesquisa e de reabilitação. O sistema desenvolvido na UNESP, tão eficaz quanto os similares importados, tem um custo estimado em R$ 20 mil, bem inferior ao dos estrangeiros, com preços entre US$ 80 e US$ 150 mil dólares. De acordo com o matemático, a diminuição no preço deve-se à redução da aparelhagem e ao desenvolvimento do software pela própria equipe de pesquisa. "Embora tenha custo reduzido, o sistema possibilita os mesmos exames e com qualidade compatível aos importados", afirma. Composto por esteira ergométrica com sensores na parte rolante, computador e uma filmadora, o sistema monitora o comportamento dos pacientes enquanto andam sobre o equipamento. "Os resultados são avaliados por meio de gráficos que indicam a força de contato do pé com a esteira e o deslocamento de pontos do corpo durante a caminhada", assinala.Segundo Pedran, o projeto ainda deve contar com profissionais da área médica, que auxiliarão na avaliação do sistema quanto à compatibilidade dos resultados obtidos em relação aos dos demais sistemas existentes. "Espera-se que, após a conclusão da pesquisa, prevista para 2004, o sistema seja colocado no mercado e possa ser usado por ortopedistas, fisioterapeutas e outros profissionais da saúde", finaliza.
