Os cariocas que quiserem ficar de olho nas estrelas vão ter que se contentar em vê-las a distância: por causa da epidemia de conjuntivite na cidade, a Fundação Planetário decidiu suspender as observações telescópicas por pelo menos duas semanas. A medida de precaução deverá vigorar até que a doença esteja controlada. Quem compartilha equipamentos nos quais se podem encostar os olhos, como microscópios e óculos de proteção, também está tomando mais cuidado, limpando-os a cada vez que são utilizados, para evitar contágio.'Vamos suspender as observações telescópicas por medida de precaução. Mas não acredito que alguém com conjuntivite venha usar nossos telescópios. Sempre orientamos o público a não encostar diretamente no visor e, além disso, higienizamos os equipamentos todos os dias', disse o astrônomo Bruno Mendonça.Até mesmo olho-mágico pode ser uma ameaça.Como as sessões de observação no Planetário normalmente acontecem de terça a quinta-feira, a interrupção, decidida ontem, começará na próxima semana. As palestras dadas pelos astrônomos, que antecedem a utilização dos equipamentos, continuarão normalmente, a partir das 18h30m. Segundo Mendonça, a suspensão das sessões não vai alterar a programação de observação do eclipse da lua, na próxima terça-feira. Como o fenômeno pode ser observado a olho nu, a Fundação Planetário vai montar um posto na Praia do Arpoador, com um telão para quem quiser admirar o fenômeno.No Instituto Vital Brazil, em Niterói, os microscópios e óculos de proteção são instrumentos de trabalho rotineiro e compartilhados por diversas pessoas. Apesar do risco, os funcionários não temem contrair conjuntivite porque, segundo o presidente do IVB, Oscar Berro, os equipamentos são higienizados cada vez que são usados. 'As pessoas não encostam o olho no microscópio, costumam manter uma distância de um a dois centímetros. Além disso, obrigatoriamente, quem usa o equipamento, independente ou não de uma epidemia, tem que limpar o suporte do microscópio e a lente com uma solução germicida. Isto serve para evitar que alguém se contamine caso alguém inadvertidamente encoste o olho no local'. A chefe do curso de biomedicina da UFF, Helena Lopes, diz que os alunos costumam tomar cuidado com o contágio nos laboratórios de microbiologia e parasitologia, onde são usados microscópios. Quando alguém tem sintomas da doença, não vai à aula.'Não há como limpar o equipamento com produtos muito fortes porque isso pode causar danos às lentes. Por isso, quando vemos um estudante com olhos vermelhos pedimos que ele fique em casa'. Durante a epidemia de olhos inchados e lacrimejantes, até mesmo um inocente olho-mágico ganha ares de vilão e vira motivo de medo. Segundo Oscar Berro, quem trabalha olhando pelo instrumento, como vigilantes de carro-forte ou porteiros, corre riscos. 'As pessoas encostam até os cílios no olho mágico. Se alguém infectado usar o olho-mágico, a próxima pessoa pode pegar conjuntivite'.Como a doença é facilmente transmitida, o número de infectados continua aumentando. No Rio, a secretaria municipal de Saúde estima que quase 18 mil pessoas tenham contraído conjuntivite. 'A epidemia continua em alta. Ainda não está havendo diminuição do número de casos', diz Meri Baran, coordenadora de Epidemiologia. Pai diz que contraiu doença ao usar óculos dos filhos.Ontem a fila para atendimento no Hospital Souza Aguiar, no Centro, se estendeu por todo o dia. Enquanto aguardava sua vez, o mecânico André Natalino Marques contou que pegou a doença ao usar os óculos escuros dos filhos, também infectados, na terça-feira passada.'Uma hora depois de ter usado os óculos comecei a sentir a vista arder. Hoje (ontem) não fui trabalhar. Mas meus quatro filhos, de 15, 14, 12 e 11 anos, que também estão com conjuntivite, continuam freqüentando a escola. O mais velho disse para a professora que tinha caído pimenta no olho dele. Ela acreditou. Os outros nem óculos escuros usaram, mas também não foram mandados de volta para casa. Eles não podem faltar porque estão em semana de provas', justificou o mecânico, morador de Queimados, na Baixada Fluminense. A falta de informação sobre a doença fez com que a servente Neide de Souza, moradora de Niterói, fosse trabalhar normalmente ontem, numa empresa no Centro do Rio. 'Amanheci com os olhos lacrimejando anteontem, mas não sabia o que era. Na empresa, me dispensaram e mandaram que eu procurasse um médico. Estava usando o colírio de uma amiga'.
