Ranjeeta Ramji pegou o bezerro pela cabeça com uma mão e passou a outra na frente de seus olhos, confirmando se tratar de um animal cego por causa da falta de reação dele. Então o indiano apontou para um inchaço semelhante a um cisto no pescoço do filhote assustado. "Câncer. câncer". afirmou. em inglês. Quatro anos depois de a Índia ter detonado uma série de artefatos nucleares no subsolo do deserto de Thar, perto da fronteira com o Paquistão, moradores de vilarejos dali ainda questionam as garantias do governo de que nenhuma radioatividade vazou.
Em Khetolai. um povoado de 1.500 habitantes localizado a cerca de 3.5 quilômetros da cerca de segurança que envolve o local de teste, os moradores contam que suas vacas deram à luz vários bezerros cegos ou doentes depois da realização das explosões. Apesar de não haver certeza sobre a razão dessas anomalias, existe a suspeita de que elas sejam consequência do fato de os animais pastarem nas proximidades da cerca de segurança. Ramji contou que seu rebanho produziu quatro bezerros cegos com tumores desde as explosões. Nenhum dos animais sobreviveu mais de um ano.
Outros moradores da região contam histórias parecidas. "Entramos em contato com as autoridades várias vezes, mas ninguém veio aqui ver a situação" afirmou Ramji. 60, que ainda se lembra de que o solo sob seus pé chacoalhou "como em um terremoto" quando cinco testes foram realizados em maio de 1998. Aos testes indianos um dos quais com um artefato quase três vezes mais poderoso do que a bomba jogada sobre Hiroshima em 1945, se seguiram testes semelhantes no vizinho e rival Paquistão. Como muitos indianos, os moradores de Khetolai. no Estado do Rajastão (oeste. sentem-se orgulhosos pelo fato de a Índia ser uma potência nuclear e pelo fato de o país ter algo com que ameaçar o Paquistão.
No caso específico de Khetolai. porém. essa satisfação mistura-se com um certo amargor. "Isso é bom para o país, mas não para as pessoas daqui" disse Mooli Devi. a mulher que comanda o povoado.
