Entre 69 famílias estudadas, 79,4% afirmaram ter doado como uma forma de dar continuidade à vida do parente falecido e que gostariam de ter notícias sobre o sucesso da cirurgia e o bem-estar do transplantado. <br><br> Fazer o bem, sem olhar a quem. Parece que apenas metade deste lema continua válido quando o assunto é doação de órgãos. As famílias doadoras querem fazer o bem, sim. Porém, querem não somente saber a quem beneficiaram, mas inclusive ter notícias dessa pessoa, conhecê-la e visitá-la, enxergando naquele corpo ao menos uma parte de um parente que acabaram de perder. Esta é uma das conclusões de tese de doutorado defendida na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) pela enfermeira Bartira de Aguiar Roza. <br><br> Em levantamento inédito no país, feito junto a 69 famílias doadoras na capital paulista, 79,4% asseguraram que doariam novamente, mas quase todos admitiram frustração pela falta de notícias sobre os resultados da intervenção e o estado de saúde do receptor. Descobrimos que existe uma intenção de reciprocidade no ato da doação que nós, enfermeiros e médicos, não imaginávamos existir, explica a orientadora da tese, Janine Schirmer. <br><br> A constatação pode indicar a necessidade de modificar alguns dos dogmas da relação dos serviços de saúde com as famílias doadoras, para não reduzir ainda mais as chances de captação de órgãos. Atualmente, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que não haja contato entre receptor e parentes do doador. Nota-se que fica uma lacuna no processo. É melhor reagirmos logo, para que isso não se torne um ponto determinante na intenção de uma nova doação alerta Bartira de Aguiar Roza. <br><br> Mulheres e desempregados <br><br> A pesquisa reuniu dados coletados ao longo de quatro anos e produziu pela primeira vez um perfil socioeconômico das famílias doadoras, com algumas conclusões surpreendentes, como a de que sexo e condição econômica são fatores importantes para definir a predisposição a doar. As mulheres destacam-se enquanto principais doadoras. São jovens, com idade média de 42,7 anos e representam 55,1% do universo estudado. <br><br> A situação econômica da família também parece influenciar na hora de optar pela doação. A pesquisa apontou a presença de 59,4% de desempregados entre os doadores e detectou que 41,3% possuíam renda entre um e três salários mínimos na época da decisão. <br><br> O município de São Paulo oferece o auxílio-funerário, na forma de urna e local para o sepultamento, e 78,5% das pessoas ouvidas aprovavam a existência desse benefício. A intenção de doar aparece em alta porcentagem entre os moradores da zona leste (93,8%), seguido da zona sul e Grande São Paulo. Essas regiões também foram as que mais utilizaram o benefício. Pesquisa Com um trabalho de garimpo, a pesquisadora Bartira Aguiar Roza conseguiu contatar 139 famílias que doaram os órgãos e tecidos de seus parentes em 2001, mas apenas 69 aceitaram contribuir com a pesquisa. As outras 70 preferiram não se envolver e adiantaram que não doariam em uma outra situação. Segundo Bartira, essas pessoas não se sentiram bem após a doação. A idéia da tese era saber se existia uma nova intenção de doar em famílias que já haviam passado pela experiência. Há oito anos realizo a captação de órgãos para transplantes e percebi que os estudos sempre estiveram voltados para a operação e também na recuperação do paciente, mas nunca na família doadora, explica a enfermeira. A enfermeira esperou dois anos, tempo mínimo do luto, para poder entrar em contato com os possíveis voluntários e lembra que, mesmo assim, muitas pessoas ainda se mostraram bastante emocionadas. Durante as entrevistas e o preenchimento do questionário, as famílias confirmaram que a decisão de doar fica mais fácil quando se sabe a vontade do falecido. Isso é muito importante, porque sabemos que existe a discussão do assunto no núcleo familiar, explica Bartira.
